Não é Match Point, mas também não é o elo mais fraco do trio de filmes britânicos. "O sonho de Cassandra" fala do destino, da vida que leva, e é dramaticamente negro. Nada de excepcional, mas nada mal...
Ao contrário de "Match point" e "Scoop", onde personagens e actores americanos se integravam na narrativa, "O sonho de Cassandra" é um filme exclusivamente britânico na sua concepção, ancorando-se agora num mundo com bem menos glamour, o das classes trabalhadoras e do submundo.
A narrativa centra-se em dois irmãos, oriundos de uma família séria e com problemas financeiros permanentes, e que são levados para um mundo criminal, quando se cruzam com uma jovem que descobre o seu poder sobre o sexo oposto.
Podendo classificar-se na categoria dos filmes mais "sérios" de Woody Allen, "O sonho de Cassandra" encontra paralelos em outras obras do realizador e não perde o sentido de humor, sobretudo quando as personagens se vêem confrontadas com um mundo a que não pertencem. No fundo, Allen acaba por percorrer um caminho coerente na sua passagem por Inglaterra, acentuando nesta obra, mais do que qualquer efeito de slapstick, uma digressão moral que o homem por detrás do artista, já nos 70 anos, não pode deixar de equacionar.
Amy Winehouse: a voz de 2007, sem dúvida, é a diva mais inesperada da nova soul. Destrói a candura das «girls-groups» dos anos 60 quando canta.
Os cabelos pretos, cheios de ondas vivas, passam longe do estilo louro-e-domesticado da maioria das cantoras jovens, e o visual é um mix original da moda anos 60 com os acessórios dourados dos rappers e dos "chavs" ingleses. Infelizmente, a cantora corporosa tem dado espaço a uma anoréxica, mas vamos falar então da voz e não dos problemas de amy winehouse.
As músicas revelam os traços de uma mulher geniosa, sincera, cool e divertida, capaz de rir da estupidez alheia e de suas próprias burradas, de confessar seus vícios e de contar como chorou largada no chão da cozinha por causa de um romance fracassado.
Depois de tudo isso, fica difícil não se apaixonar por Amy Winehouse. Se a descrição não for convincente, basta apertar o play em "Back to Black", segundo CD da cantora da mais recente safra de talentos britânicos, para reconhecer suas qualidades nada ordinárias.
Em Back to black, que tem apenas composições dela própria (algumas em parceria), Amy revisita o som de girl-groups como Martha Reeves & The Vandellas, Supremes e Shangri-Las (esse, com direito a agradecimento no encarte) em faixas como "Tears dry in their own" e no primeiro hit, "Rehab". Esta, por sinal, é barra pesada - a letra - cujo título, em bom português, é "reabilitação" - trata dos problemas da cantora com o álcool, já conhecidos publicamente ("eu e a bebida temos uma relação bem intensa, de amor e ódio", confessou ela com exclusividade para um jornal brasileiro, recentemente). Músicas como "You know I'm no good" e "Love is a losing game" poderiam ter saído da mão de um Otis Redding e estar no repertório de uma Aretha Franklin - o que não é motivo para ninguém sair endeusando a moça (como diz o ditado: notícias, sucessos pop, salsichas, mariola... se for consumir, melhor não ver como nada disso foi feito). Nas letras, Amy larga qualquer condição de musa soul que o mercado poderia lhe impor e vem com uma carga pesada - problemas existenciais, relacionamentos complicados, etc.
Quem quiser dar uma sacada no som de Amy antes de comprar ou baixar o CD, vale informar que ela tem um MySpace - oficial, com direito a endereço na contra-capa do disco e tudo. Fica em www.myspace.com/amywinehouse. Por sinal, resta saber qual lado vai aparecer cada vez mais na mídia, se o de cantora/compositora inspirada e belíssima fisicamente, ou o de encrenqueira bebum - os tablóides ingleses, que já andam em polvorosa por causa das doideiras de Britney Spears, já andam explorando as brigas de Amy com outras artistas e suas declarações sobre bebidas e drogas.
"Naquela manhã quente, seu Barroso levantou cedinho. Próspero comerciante carioca, ele tinha de ir até o Valongo, na zona portuária, examinar mercadorias recém-chegadas.
Mandou um escravo enrolar as esteiras onde havia dormido, enquanto outro colocava uma tábua em cima de dois cavaletes e trazia as gamelas com o almoço. Entre um bocejo e outro, Barroso mergulhava os dedos na papa de farinha e feijão-preto. Terminou de comer, limpou as mãos na roupa de algodão e, antes de ir para a rua, deu uma chinelada na ratazana que tentava invadir sua casa.
O comerciante precisou aplicar um golpe de bengala para atravessar a esquina - um bando de urubus estava distraído demais para lhe dar passagem, banqueteando-se com um cachorro morto na véspera. Numa rua estreita, Barroso passou por seu barbeiro, o mulato Sebastião, e se deteve um instante.
Suas hemorróidas estavam de matar. Seria o caso de pedir ao velho homem uma rápida aplicação de sanguessugas? Talvez uma outra hora. Mais alguns minutos e Barroso finalmente chegou ao Valongo, onde trocou uma bela quantidade de carne-seca e couro curtido por alguns negros trazidos da África"*.
A cena fictícia acima descrita retrata muito bem o que era capital do Brasil no início do século XIX. Nada mais que uma cidade tosca onde nada havia. Mais graças ao baixinho do Napoleão Bonaparte, tudo mudou para o Brasil, já que este homenzinho resolveu acabar com o sossego dos português. Isso provocou a já ultra-mega-mencionada fuga do princíupe regente Dom João - que este ano faz dois centenários - e de todo o aparato estatal português para cá, entre o fim de 1807 e o começo de 1808, que deu os primeiros passos para acabar com esse marasmo e acabaria por colocar a colônia, sem querer, no caminho da independência. Mas esta é uma outra história.
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